NOTAS DA ALMA

03:30:00




Ela parou em frente ao piano, olhou para os lados à procura de que alguém estivesse aparecido, abriu a tampa que cobria as teclas, passou a mão suavemente por elas, admirando aquele instrumento inigualável, sem fazer nenhum barulho. Fechou os olhos por um minuto, apertou a primeira tecla, parou por um segundo, deixando que o ambiente silencioso daquela sala apreciasse aquele som de uma única nota. Apertou a segunda, a terceira, reuniu forças, havia um banquinho que estava posicionado ao seu lado, em frente ao piano e sentou, começou a tocar, continuando as notas que antes pareciam aleatórias.
Ainda com os olhos fechados, foi tocando devagar, conforme se lembrava da partitura que havia ficado gravada em sua mente. Uma sensação de sentimentos a invadiam quando apertava cada nota. Ela ouvia o som e entrava em êxtase, queria passar o resto da vida tocando, não precisava de mais nada para viver. Ela a salvou.
A música foi ganhando força, as notas foram ficando mais fortes. Ela transmitia sua força para aquele piano, depositava toda a sua esperança e sentimentos naquela música, como se sua vida dependesse daquilo.
Finalmente tudo fazia sentido, naquele momento tudo se encaixava, seus pensamentos entrava no lugar. Ela não era mais a garota estranha do interior. Só era apenas ela e a música.
Aquela música contava uma história, a sua história. Ela sentia as lágrimas escorrerem por sua face, incontroláveis. Não consiga parar, apenas tocar, por fim acabou deixando que elas saíssem. Como se libertasse sua alma.


No outro lado da parede, em seu quarto, ele ouvi cada nota com atenção e precisão. Não perdia uma só vez que ela tocava. Ficava ouvindo e ouvindo, esperando descobrir qual era a música que ela tocava, esperava todas as noites músicas diferentes, mas nunca houve, apenas a mesma música misteriosa, do qual ele nunca conseguiu descobrir nome e nem autoria.
Começou com uma noite tediosa, deitado em sua cama ouviu pela primeira vez, ficou curioso por alguém ir tocar tão tarde, saiu de fininho, na calada da noite, foi até a sala e a viu. Ela era linda, iluminada pela luz da lua que invadia aquela sala. A luz era fraca, mas o suficiente para que ele conseguisse enxergá-la de lado.
Ficou estasiado com a paixão com que ela tocava, era uma música singular e linda, nem notou-o que ele estava parado na porta a observando. Ele ficou lá, parado, fechou seus olhos por um minuto, até ouvir que ela estava finalizando a música, bem lentamente. Com medo de ser descoberto, ele voltou para o seu quarto, com aquela melodia em sua mente. Passou o dia seguinte com ela na cabeça, sem conseguir esquecer nem da garota, nem da música.
Naquela noite, ele estava em seu quarto, como de costume, até que começou ouvir novamente o piano. Saiu praticamente correndo do quarto para vê-la. Dessa vez ela parecia hesitar em tocar. Ele não parou na porta, encostou na parede pelo lado de fora e lá ficou ouvindo a mesma música, as mesmas notas, a mesma garota e a mesma tristeza.
Sabia que algo havia mudado, ele conhecia aquela menina, apesar de nunca terem se falado. Ele queria ir até ela e perguntar que música era essa. A música era triste, mas tinha algo a mais por trás, ela tocando. Aquela música era ela, e ela era a música. Uma história que tinha que descobrir a qualquer custo.
Depois disso, todas as noites ele a ouvia tocar e tentava chegar perto dela, na esperança que conseguisse se aproximar.


Ela tocava a mesma música todas as noites, do mesmo jeito, melhor, do seu jeito único. Até que em uma noite, na parte final, ela sentiu uma presença na sala, foi parando de tocar e olhou para o lado e o viu. Aquele cara. Ela o conhecia bem, já tinha visto nos corredores e em sua turma. Mas nunca trocaram uma palavra sequer. Ela já tinha ouvido-o tocar na Academia, ficava admirada da forma que conduzia a música.
No segundo seguinte, ela o viu desaparecer, sair da sala, deixando-a sozinha com suas mãos ainda no piano, na última nota. Ela pensou que ele tivesse percebido que ela o tinha visto. E deveria estar se preparando para quando a fofoca surgisse na acadêmia, provavelmente no dia seguinte e no sermão que levaria por tocar fora do horário permitido. Mas a raiva que sentia por ele ter a visto tocando era grande. Era como se tivesse sido invadida, violada, ainda mais por ser essa música, algo pessoal, particular, que não dava direito a ninguém, principalmente, a ele. Mas tinha uma pontinha, lá no fundo, que gostou que ele a visse tocando, pôde sentir seus olhos de espanto misturado com uma admiração que sabia que deveria ser coisa criada pela sua mente.
Mas a sensação era tão boa. No dia seguinte, ainda consumida pela raiva, esperou, esperou e nada. Nenhuma direção chamando e nenhuma outra pessoa falando sobre a noite anterior. Ao mesmo tempo foi um alívio, mas ainda ficava apreensiva, com medo que alguém descobrisse as suas noites. Deveria parar, mas não fazia, tocar na madrugada trazia a paz que seu coração buscava. O consolo para sua alma.
As noites continuaram, ela tocando, sabendo que ele estava naquela sala, ouvindo-a, e ele lá, encostado na parede, escutando cada passagem daquela curiosa música. De dia nunca conversaram, e talvez nunca iriam. Mas a noite era claro a cumplicidade entre os dois.
Muita vezes na vida parecemos que gostamos de complicar as coisas. Torná-la mais difíceis. Para os dois, era tudo muito simples e fácil. Ela criou esse mundo, para ficar só e ele o invadiu, pegando um lugar, fazendo a companhia que ela não queria, mas que precisava, por mais que nenhum dos dois admitissem. Não precisava de mais nada, nem de palavras e nem de atitudes, apenas essa parceria dela tocar e ele ouvir bastava. Era suficiente para confortar o coração dela e agitar o dele. Do jeito que eles queriam. Notas que acalmavam, notas que agitavam. Notas que completava suas almas.

Jéssica Tolare



You Might Also Like

0 comentários

Amazon

Amazon