ENTRE OS PINGOS DE CHUVA NA MADRUGADA

03:30:00




Já era bem tarde, não sei que horas da madrugada. Mais uma vez a insônia tinha se prestado a aparecer e me fazer companhia. Lá fora a chuva caia, forte e sem nenhum sinal de que pararia. Tentava ler um pouco e tomar o restante do café que esfriava. Tudo em vão. Acabava sempre lendo e relendo o mesmo parágrafo, por causa dos pensamentos que faziam me perder.
Quando o telefone tocou, levei um grande susto. Quem mais poderia ser aquela hora. Claro que era ele, dizendo que estava com saudade e me pedia para voltar lá, que estaria me esperando. Em um misto de confusões de sentimentos, saudades e raiva. Desejo e repulsa. Ponderei a possibilidade de voltar. Por apenas uma noite.
Tomei um banho, me troquei e me arrumei, sem ter a certeza do que estava fazendo, sem pensar muito. Ainda tinha dúvidas, sabia dos riscos de me aventurar em voltar. Estava na esperança que a qualquer momento desistisse dessa ideia, mas meu corpo quis seguir em frente. Nada do que minha mente dizia parecia ter importância.
Continuei com esse pensamento já no táxi. Só entendi que era real quando ele me deixou na porta de sua casa. Fiquei um bom tempo lá, sem fazer nada, tomando chuva, ficando encharcada e tomando coragem, só não sabia para o que. Poderia parar e dar meia volta e voltar para casa ou dar mais um passo em direção a seus braços. Uma decisão que não deveria ser tão difícil, mas que teve um peso enorme.
Finalmente resolvi o que fazer, dei um passo adiante, toquei a campainha e esperei que ele abrisse. Não tive nenhuma reação, apenas fiquei parada, olhando para sua cara quando ele apareceu. Ele parecia surpreso, como se achasse que não viria.
Depois de ficarmos nos olhando, ele me puxou para dentro, me imprensando na porta, batendo-a com tudo. Não fez nada, apenas alinhou seu rosto a altura dos meus, olhos nos olhos, nossos narizes nos tocando e as bocas separadas.
Ele levou a mão em meu rosto, colocou o cabelo molhado atrás da orelha como se quisesse me olhar direito. Eu respirava fundo, nervosa e ansiosa pelo próximo passo dele. Ele continuou descendo sua mão até parar em minha cintura, foi se aproximando cada vez mais. Até que seus lábios tocaram os meus, foi devagar, calmo, como se quisesse ser saboreado. Aos poucos foi tornando-se mais rápido, ganhando força, urgente.
Ele parou, ofegante, pegou minha mão e me levou em direção ao quarto. Lá fora a chuva caía cada vez mais forte, sem sinal que pararia. Uma mistura de paixão e luxúria tomou conta do quarto e de nós, a cada peça que caia no chão, a cada olhar sem palavras, a cada toque provocando os desejos mais secretos. Uma dança sensual de dois corpos que chegariam ao êxtase juntos, movido por um ritmo que apenas os dois conheciam.
Após tantas horas, nem sei quantas, caímos no sono, na verdade, ele dormiu, eu apenas me dei a oportunidade de ficar mais um pouco deitada lá, deixando minha mente vagar enquanto o táxi que havia chamado não chegava. Depois de um tempo, percebi que era hora de ir embora. Levantei, peguei minhas roupas e da mesma maneira que cheguei, fui embora. Não deixei bilhete, não havia o porquê. Simplesmente sai sem olhar para trás.
Lá fora a chuva ainda caía, mas, agora, era apenas fina, uma garoa. Antes de entrar no táxi, dei uma última olhada naquela casa, onde tinha passado tanto tempo de minha vida, onde havia tantas histórias gravadas na chuva, onde finalmente consegui me despedi. Dar adeus foi mais fácil que imaginei, deixá-lo lá não foi difícil. Por muito tempo desejei que as coisas fossem diferentes, mas eu precisava disso para recomeçar, de apenas uma noite. Depois parti, me reergui e deixei todo o passado onde ele deveria ter ficado. Desta vez, para sempre.

Jéssica Tolare

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