[CAFÉ DA MADRUGADA] O CAMINHO DAS ESTRELAS

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Oi gente, tudo bem? Às vezes, tento bancar a escritora e escrevo algumas coisas. Assim como a música, as palavras têm o poder de me acalmar de uma forma indescritível. Por isso, resolvi compartilhar um conto aqui que postei no Wattpad (para quem quiser conhecer outros contos, deixo o link aqui).


Ela andava pela rua desligada, perdida em seu mundo, sem pensar muito nas coisas. Gostava de observar as pessoas, a paisagem. Pensava em tudo ao mesmo tempo em que pensava nada. Viu crianças brincando, lembranças de sua infância invadiram sua mente e sentiu saudades da inocência daquela época.
Continuou sua caminhada por aquela avenida, tinha cada vez mais lojas, de todas as variedades. Uma imensidão delas, uma mais linda que a outra. Passando em frente a uma doceria viu um casal. Parou um minuto para ficar observando. Eles pareciam felizes, sentados de frente um para o outro, ele com a mão sobre a de sua companheira, com sorrisos estampados e cara de apaixonados. Uma cena tão bonita, que até ela ficou feliz por eles, mas, de repente, uma solidão a bateu, um sentimento de saudades, não de quem, mas do que, sentiu a falta de um abraço aconchegante, de um beijo, de um sorriso, sentiu falta de um sentimento que ela conhecia bem, mas que tinha medo. Sentiu saudades de amar, mas, principalmente, ser amada.
Ficou tempo demais parada lá, até tentada a entrar, mas se obrigou a continuar andando. Foi em frente, assim como fez com seu passado.
Passou em frente a uma pracinha, simples, mas que parecia ser aconchegante. Viu dois velhinhos sentados, conversando, pareciam tão animados, como se há muito tempo não tivessem se visto e resolveram colocar a conversa em dia. Mais uma cena linda. O dia hoje estava bem peculiar, e significava algo bom.
Resolveu subir até a colina, no final da pequena cidade, lá tinha uma árvore que fazia uma sombra gigantesca, fresca, com um pequeno balanço. Ia quando mais nova para brincar e ficar sozinha. Mais uma vez, lembrou de sua infância, inocente, feliz mas tão solitária. Não conseguia se lembrar o porquê.
Conforme subia sentiu os traços do cansaço provados pela caminhada e pela doença que já a consumia. O cansaço era impossível de evitar, parou diversas vezes para tomar fôlego, recuperar as forças para continuar sua caminhada. Com muito esforço chegou no topo. Dê lá de cima ficou vendo a cidade pacata para qual voltara. O vento que batia em seu rosto e sacudia seus cabelos curtos, trouxe uma nostalgia inigualável. O sol já estava se pondo, uma paisagem maravilhosa se formou diante de seus olhos. Ficou um bom tempo admirando e pensando na imensidão do que via.
Quando se deu conta, as estrelas já tomavam conta do seu lugar no céu. Soube que era hora de descer, voltar para casa, mesmo que não quisesse, por ela, poderia viver eternamente em seu mundo, confortável e segura, não queria encarar a realidade, porque ela machucava, doía e por fim, a destruiria.
A noite estava tão bela quanto foi o dia. Tinha uma lua cheia linda e estrelas que só uma cidade do interior conseguiria mostrar. Brilhantes, como se tivessem caminhos desenhados. Ela desejou que eles mostrassem os seus.
Tinha mais pessoas do que teve no dia. Algumas na única sorveteria da cidade, outras na pracinha. Ela passou por todos eles, se encantando cada vez mais, se misturando a paisagem, na esperança de passar invisível. Não queria que a notasse, observar já era o suficiente. Tinha esquecido a beleza da simplicidade.
Encontrou um café que não tinha reparado de manhã, pelo horário já estava na hora de comer alguma coisa. Quando entrou notou que a decoração era meio antiga, como se fossem os anos 1990, meio vintage, mas uma graça, entrou. Sentou em uma mesa no fundo, daquelas na parede, de onde conseguia observar todo o lugar. A moça que foi atender era linda, um rosto bonito e sua simpatia deixava-a mais bela ainda. Foi educada e atendeu ao pedido.
Perguntou se ela se estava bem, parecia abatida, cansada. A resposta, por mais mentira que fosse, era sempre a mesma. Dizia estar bem, mas no fundo não aguentava mais. As pessoas perguntam as outras como se sentem, já na esperança de receber um "vou bem, obrigada", porque elas não se importam realmente com o bem-estar das outras. Tudo é apenas um protocolo social.
Depois de um tempo, perdida em seus pensamentos, a garçonete a desperta, fazendo-a voltar a realidade. Ela trouxe sua comida. Um prato básico, arroz, feijão, bife e batata frita, só com o suficiente para saciar a fome e uma xícara grande de café. Como se a cafeína acalmasse sua alma.
Beliscou um pouco da comida e ficou mais interessada em tomar todo o seu café, mesmo que não pudesse, fez, devagar, com pequenas goladas, o suficiente para não queimar a boca e saborear o gosto deixado por aquele líquido, sentindo aquele cheirinho que trazia a sensação de paz. Mais uma vez o sentimento da saudade a arrebatou. Ela sentia tanta falta de café. Mas apenas hoje se permitiu tomar.
Entre seus devaneios e goladas de café, notou uma pessoa a observando. Levantou os olhos e viu um moço, não tinha cara de tão velho, mas definitivamente não era tão novo, ele era bonito, mas nada extraordinário. Ele a observava, como se quisesse descobrir um segredo, curioso em querer desvendá-la. Ela se sentiu constrangida, mas, ao mesmo tempo, tinha uma sensação boa, que repreendeu. Não podia mais confiar em pessoas. Sabia como ninguém afastá-las. Era tão fácil, que depois de um tempo torna-se automático. E assim ela ficaria protegida em sua fortaleza que construiu ao redor de si.
Ela tentou esquecer que era observada e voltou para seu café. Não terminou de comer, tinha perdido o apetite. Não percebeu que ele tinha se levantado e ido a mesa em que ela estava até ele estar sentado em sua frente. Ela levou um susto, derrubando um pouco do café.
Ele pediu desculpas, não queria ter assustado-a. Ficou fascinado com o quanto ela parecia gostar de tomar café, não entendia como as pessoas gostavam daquela bebida. Disse que por isso queria conversar, uma desculpa para puxar assunto. Sentia muito por tê-la feito derrubar, até pediu que trouxessem uma outra xícara. Ela sem nenhuma reação, com uma expressão indecifrável, ficou-o observando. Via certa sinceridade em suas palavras, mas não sabia até onde era verdade. Depois de um tempo esboçou um leve sorriso, afinal, café era café.
Ele suspirou aliviado, com medo dela levantar e ir embora, deixá-lo sozinho. Não poderia suportar mais abandonos.
Os dois começaram a conversar. Logo entraram em uma discussão entre o porquê gostar de café. Ele que nunca entenderia e ela que sempre amaria. Dois opostos, que divergiam opiniões, e pareciam se encaixar de uma forma extraordinária.
Engataram em vários temas, conversaram sobre tudo e sobre nada. Sobre os mistérios da Terra, do sol, da lua e das estrelas, mas nunca sequer tocaram em seus nomes. Não queriam saber da vida do outro, tinham medo das consequências que isso geraria. A realidade era dura demais para enfrentar, preferiram continuar nesse mundinho particular que os dois criaram.
Pela primeira vez ela o olhou nos olhos, viu que um era verde e o outro castanho, quase preto. Ficou fascinada. Era tão diferente. E ele a olhou, cabelos bem curtos que a deixava linda, mas o que deixou fascinado foi seu sorriso, que revelou uma pequena covinha na bochecha direita, tão encantadora. Caíram em silêncio por tempo demais. Não sabiam quanto tempo tinha se passado, nem quanto tempo restaria. Trocaram contatos, sem dizer muito, sem garantir muito, apenas o real. O nome e um número, sem a promessa de um futuro.
No final, pouco foi revelado, eles seguiram seus caminhos, cada um com o seu. Mas havia olhos com cores diferentes que insistiam em assombrar a moça durante os sonhos. E o sorriso com uma covinha que não saíra da mente daquele pobre rapaz. Bastava uma olhada para as constelações que estavam no céu para sentir a possibilidade de um futuro.
Os caminhos das estrelas são únicos, singulares, peculiares. Cada um foi projetado de acordo com os desejos, necessidades, obstáculos, provações, alegrias e tristezas e todos pelo destino. Não se sabe quando, muitas vezes nem o porquê, mas se espera tudo. Se olhar bem atentamente, talvez descubra quais são eles.
Os destinos podem se cruzar. Não quer dizer que aconteça, mas que sim é uma possibilidade. Nas estrelas eles estão desenhados, com a função de guiar os caminhos até o destino final.


Espero que tenha gostado. Deixe nos comentários o que achou!

Beijos e até a próxima,
Jéssica Tolare




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